quinta-feira, março 23, 2006

Não sei quem és.

Desfolho os poemas guardados nos cantos da alma e vejo-te ali sentada entregue ao teu vazio, o teu olhar descontrolado, uma música no rádio soa no teu ouvido, vejo-te desemparada, sem rumo, sem destino, chamo pelo o teu nome escondeste por de trás do tempo, das recordações que um dia te fizeram sorrir a alma. O presente destroi-te, afugenta-te os sonhos. És miúda de vestido cor de rosa com bordados e cabelos encaracolados. Estas ali neste teu lugar, que apenas te pertence. És sozinha no teu mundo de fantasia, és uma multidão de braços abertos. És inocente quando te sopro as palavras a luz da vela. Acordei afinal somos ambos inocentes. Eu e a minha natureza tu e a tua natureza somos um elo de ligação, porque vives dentro de mim e não sei quem és nem de onde vens. Acordei e só te vejo aqui dentro. Sai vem para a rua e diz-me quem és.

Jamour

quinta-feira, março 16, 2006

Uma Carta de Mar...

Vagas..., de João Radich (olhares.com)


Eu não quero que o mar saiba essas palavras que não ouves e conheces... Nem que o vento transporte como folhas esse emaranhado de sentimentos e pensamentos que é a confusão de existir. Eu não quero que eles conheçam essa existência do que existe entre nós e nem nós descobrimos quando nos olhamos, calados, silenciosos, receosos... dessas palavras, que nem o mar pode ouvir...

E sei que um dia se lamentará (mas quem? qual de nós?) a inexistência do verbo ou do tempo verbal, da palavra fecunda que estéril permaneceu sufocada na garganta de cada um e depois permitiu-se assim o vazio... E sei que prosseguiremos pela estrada fora, tentando convencer-nos de que o vazio é tudo quanto existe... apenas porque... essas palavras que não são para o mar, são nele deitadas, deixadas levar para longe...

Contemplo o mar, sentado na esplanada. Este mar meu que pressinto como se me tivesse visto nascer e eu fosse parte dele... e há minha frente este papel amarrotado, escrito na urgência da solidão do momento diz-me que eu não quero que o mar saiba essas palavras que não ouves e conheces fingindo não conhecer... e sei que é tarde - o mar já as sabe...


by Ar, 16 de Março, 06

segunda-feira, março 13, 2006

carta, a lápis...de carvão

escrevo-te. a ti. que escreves cartas no escuro da noite. de noite. por um nada. escrevo por nada. agarrei no papel e no lápis. podia ser na guitarra e deixar que os dedos ferissem a noite, com um fado não cantado. não chorado. dedilhado na noite. mas calhou-me o lápis. de carvão. apenas porque hoje, é ele o meu companheiro da noite. esboço a vida de noite, como quem desenha a beleza. primeiro, o esboço, depois as linhas, só mais tarde , no amanhecer, as cores…
escrevo-te. a ti. porque só ( tão só, porque foste tu que me entraste na noite). não tenho portas, nem janelas, por isso entraste de leve, como a cor de uma aguarela a percorrer as veias do papel, em suavidades de brisa…
não tenho que te dizer, faz de conta que é guitarra que toca a embalar as estrelas…nem sequer tenho pergunta, ou história para te dar. estou aqui no silêncio de um esboço, a fazer-te companhia, no escuro nocturno da noite. da tua noite. com um papel-guitarra a saltitar no esboço das estrelas. tal como tu, também a lua entrou ao de leve para me segredar as cores dos furturos que se escondem no escuro do amanhã.
por isso aqui estou, a escrever-te. a ti. que desenhas anjos de asas negras, (tão iguais a todos os outros anjos...) para que não façam barulho e assustem os sonhos que (te) habitam na noite que demora a pousar suave, no dormir…

domingo, março 12, 2006

Carta Nocturna IV


Sento-me lenta, desfazendo o olhar na cortina esvoaçante.

O luar entra pela janela aberta aguardando-te, guardando-te... por dentro, onde se fixam as prisões perpetuas...

Acordo insone, insolente perante mim mesma e insisto neste acto desesperado, esperado, de te esperar.

Esperei-te o dia todo. Esperei por ti toda a semana, inteira, vendo-a passar... acabar sem ti.

Esperei o mês que passou e todo o tempo que passou e tu não passaste em frente da janela que te aguarda nem uma só vez, um breve instante, em que o meu olhar pudesse pousar no teu e talvez...

Queria perder esta mania de esperar e guardar dentro... desencostar-me das almofadas... desviar o olhar da cortina... cerrar a janela ao que de mim sai...

Queria um movimento que incapaz nem desejo é, porque não o quero verdadeiramente. Sei apenas que por vezes acordo assim, como se ainda te esperasse e tivesse esse direito...

by Ar, 12 de Março, 06


Foto
All Those Years Waiting for You II, de Angelica